Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise — Parte II: Texto 13 – Porque é que escrever à mão é bom para o nosso cérebro . Por Daniel J. Plebanek e Karin H. James

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

 

Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.

Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes

Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium

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Nota de editor:

A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 2.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7 min de leitura

Texto 13 – Porque é que escrever à mão é bom para o nosso cérebro

Por  Daniel J. Plebanek † e  Karin H. James

Publicado por  em 6 de Abril de 2022 (original aqui)

 

À medida que os computadores portáteis e tablets se tornam cada vez mais populares, a escrita à mão está a desaparecer aos poucos. Embora as novas tecnologias tragam muitos benefícios — como ajudar-nos a manter contacto uns com os outros e permitir que pesquisemos informações rapidamente — atividades como escrever letras à mão podem ajudar o cérebro a aprender. Existem muitas razões possíveis para isso. Quando as pessoas escrevem letras à mão, elas: (1) veem e sentem ativamente a letra a ser formada; (2) veem diferentes versões dessa letra; e (3) prestam mais atenção ao que estão a fazer.

Neste artigo, o leitor vai descobrir como é que a escrita à mão nos ajuda a aprender símbolos e a memorizar informações. O leitor também vai entender como é que o seu cérebro reage quando escreve à mão em comparação com quando digita. A escrita à mão ainda é importante, mesmo que hoje em dia a maior parte da nossa comunicação aconteça por meio de um teclado ou de ecrã de toque.

 

As Letras São Símbolos

Aí estavas sentado numa sala de aula, a praticar a escrita de letras e palavras. Talvez estivesses a imprimi-las, ou talvez estivesses a aprender letra cursiva. Mas alguma vez te terás, muito provavelmente, perguntado: “Porque é que é preciso saber escrever se basta pressionar as teclas de um computador ou de uma tablet?” Bem, resumindo: escrever à mão ajuda-nos a aprender um conjunto de símbolos com mais facilidade e também ajuda a memorizar as informações que cada um de nós anota! Usar um teclado simplesmente não oferece os mesmos benefícios que a escrita à mão nesses aspetos. Na verdade, alguns investigadores acreditam que digitar pode até dificultar a aprendizagem! Vamos analisar essas duas situações mais de perto.

As letras são símbolos, porque o leitor não consegue saber o que elas significam apenas pela sua aparência. Por exemplo, o símbolo x provavelmente é desconhecido para cada um de nós.  O que significa ele? Será que o leitor consegue descobrir o que é que ele significa só por olhar para ele? Não, é preciso que alguém externamente te diga o que ele significa. Os símbolos podem ser confusos porque muitos deles têm nomes (como a letra “A”) e também têm sons (como o som que a letra “A” faz na palavra “gato”). Além disso, o som de um símbolo pode mudar dependendo dos outros símbolos ao seu redor — o som do “A” em “gato” é diferente do som do “A” em “mesa”.

Para complicar ainda mais, a aparência dos símbolos pode variar bastante. Por exemplo, estas são todas versões diferentes da letra “A”:  Mesmo que você já saiba que esses símbolos são todos a mesma letra, quando você aprendeu o alfabeto pela primeira vez, o seu cérebro não sabia disso! Provavelmente levou algum tempo para aprender que esses símbolos são todos a letra “A.” O que é especialmente interessante é que mostrar ao seu cérebro esses diferentes exemplos do mesmo símbolo o ajuda a aprender a compreender esse símbolo.

 

A Aprender os Símbolos

Agora vamos pensar sobre impressão e escrita. O leitor lembra-se de como era a sua caligrafia quando começou a escrever pela primeira vez? Talvez os seus pais tenham guardado alguns exemplos das suas primeiras escritas, ou talvez o leitor já tenha visto uma criança de 5 anos tentar escrever alguma coisa. A escrita de iniciantes costuma ser muito confusa, e às vezes nem conseguimos identificar quais são as letras (Figura 1). Além disso, ao aprender a escrever letras, o formato de cada letra pode mudar cada vez que uma criança tenta escrevê-la! Mas lembre-se do que acabámos de dizer: ver exemplos diferentes de uma letra na verdade ajuda o cérebro a aprender! Isso significa que sempre que uma criança vê uma letra com aparência um pouco diferente, mas que ainda tem o mesmo nome, isso ajuda o cérebro da criança a aprender aquela letra.

Uma experiência demonstrou isso pedindo-se que as crianças aprendessem um alfabeto completamente novo: o alfabeto grego. As crianças foram solicitadas a escrever à mão símbolos gregos (λ, ρ, φ, ξ) ou a digitá-los. Depois de praticarem a escrita ou digitação dos símbolos, os investigadores mostraram às crianças símbolos aleatórios e perguntaram se elas já tinham visto aqueles símbolos antes. As crianças que escreveram os símbolos à mão lembraram-se muito melhor do que as crianças que os digitaram [1]. Esse estudo simples mostrou que escrever os símbolos à mão ajudou as crianças a aprendê-los.

 

Observando o Cérebro a Aprender

O leitor deve estar a perguntar-se como é que sabemos o que acontece no cérebro quando as crianças estão a aprender símbolos. É aí que entra a imagiologia cerebral. Usando uma tecnologia incrível chamada imagem por ressonância magnética funcional (IRMf) [n.t. uma técnica de imagem que mede a atividade cerebral], podemos ver o que está a acontecer dentro do cérebro enquanto ele aprende. A IRMf é parecida com um raio-X, exceto que, em vez de vermos ossos, podemos ver a atividade cerebral. O digitalizador de IRMf permite-nos ver as áreas do cérebro que estão ativas [2]. De certa forma, a IRMf grava vídeos do cérebro enquanto a pessoa está a fazer alguma coisa. Digamos que queríamos ver o que acontece no cérebro de uma pessoa que está a imprimir símbolos à mão em comparação com digitá-los. Poderíamos colocar uma pessoa num digitalizador de IRMf (Figura 2) e pedir que ela olhasse para letras e as escrevesse à mão ou as digitasse enquanto estivesse dentro do digitalizador. Alternativamente, poderíamos fazer com que as pessoas aprendessem símbolos — seja escrevendo-os à mão ou digitando-os — e depois mostrar imagens desses símbolos enquanto estão no digitalizador de IRMf. Podemos observar o cérebro a aprender ao registar a sua atividade antes e depois de as pessoas aprenderem os símbolos, para ver o que muda. Algumas experiências mostraram que o cérebro só reconhece símbolos que aprendeu se eles foram escritos à mão, e não se foram digitados (Figura 3) [3]. Isso não significa que o cérebro não consegue aprender letras digitadas: claro que consegue! Mas o cérebro aprende letras escritas à mão muito mais rapidamente do que as digitadas. Portanto, quando estamos a aprender letras novas, símbolos matemáticos ou outros símbolos, é muito melhor escrevê-los à mão do que digitá-los.

Não sabemos ao certo porque é que aprendemos símbolos escritos à mão melhor do que os digitados, mas alguns investigadores pensam que é por causa das pequenas diferenças num símbolo que ocorrem quando o escrevemos várias vezes, como explicámos anteriormente. Mas também pode ser que seja necessária mais atenção para produzir um símbolo à mão do que simplesmente pressionar uma tecla. Também é possível que criar símbolos um traço de cada vez nos ajude a entender como as linhas do símbolo se encaixam, e isso nos ajuda a aprender o símbolo [4]. Os investigadores estão muito ocupados a tentarem descobrir porque é que a escrita à mão é melhor do que a digitação para aprender novos símbolos. Esperamos saber a resposta em breve! Mas o leitor já conhece as suas letras e, se não está a tentar a aprender um novo alfabeto, como é que a escrita à mão pode ajudá-lo?

Escrever à Mão Ajuda a Lembrar

Se perguntarem aos vossos avós, ou até aos vossos pais, como é que se lembram de uma lista de compras, eles provavelmente dirão que a escrevem. Às vezes escrevemos as nossas listas de compras no telemóvel e consultamo-las enquanto fazemos as compras. Mas e se o teu telemóvel ficasse sem bateria no supermercado, ou se perdesses o papel onde escreveste a lista? A investigação mostrou que, se escrevesses a lista à mão, te lembrarias dela melhor do que se a tivesses digitado no telemóvel [5]. E isso é apenas com listas de compras — imagina quando tens de memorizar um monte de matéria chata que o professor está a explicar na aula. Um estudo com universitários mostrou que eles retinham mais informação de uma aula se tirassem os apontamentos à mão do que se os escrevessem no computador [6]. Portanto, sabemos que não só aprendemos melhor os símbolos ao escrevê-los, como também nos lembramos melhor da informação se a escrevermos à mão. Mas porquê?

Certamente é mais rápido digitar informação durante uma aula do que escrevê-la, certo? Mas a velocidade pode ser precisamente o problema! Quando digitamos, tendemos a escrever exatamente o que o professor diz, sem pensar no assunto. Escrever à mão demora mais tempo, por isso não conseguimos registar tudo o que o professor diz. Ao escrever, tendemos a usar as nossas próprias palavras ou a resumir o que o professor explica. Reformular ideias com as nossas palavras ou resumi-las exige que pensemos sobre o conteúdo enquanto o escrevemos, o que requer mais atenção. De certa forma, tirar apontamentos à mão é uma maneira de estudar enquanto aprendemos! Isso torna tudo muito mais fácil quando temos de voltar a estudar essa matéria para um teste, porque já a conhecemos melhor do que se a tivéssemos digitado.

Em resumo, escrever à mão pode ajudá-lo a aprender coisas novas, como símbolos e alfabetos, mas também permite que nos lembremos das informações melhor do que se as tivesse digitado. Não importa como é que escreve — letra de forma, cursiva, abreviações — o que importa é que o leitor escreva à mão. Portanto, continue a escrever! E lembre-se: não importa se for ilegível — às vezes isso é até melhor!

 

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Financiamento

Subsídio do National Institute of Health 2t32 #HD007475-21. A investigação descrita aqui foi parcialmente apoiada pelo Gabinete do Vice-Presidente da área emergente de Investigação da iniciativa de investigação, Aprendizagem: cérebros, máquinas e crianças pela Universidade de Indiana o ce Vice-Presidente da Research Emerging Area of Research Initiative, Learning: Brains, Machines, and Children da Indiana University.


Notas

  1. Li, J. X., and James, K. H. 2016. Handwriting generates variable visual output to facilitate symbol learning. J. Exp. Psychol. Gen. 145, 298–313. doi: 10.1037/xge 0000134
  2. Vinci-Booher, S., James, T. W., and James, K. H. 2016. Visual-motor functional connectivity in preschool children emerges after handwriting experience. Trends Neurosci. Educ. 5, 107–120. doi: 10.1016/j.tine.2016.07.006
  3. James, K. H., and Engelhardt, L. 2012. The efects of handwriting experience on functional brain development in pre-literate children. Trends Neurosci. Educ. 1, 32–42. doi: 10.1016/j.tine.2012.08.001
  4. James, K.H. 2017. The importance of handwriting experience on the development of the literate brain. Curr. Direct. Psychol. Sci. 26, 502–508. doi: 10.1177/0963721417709821
  5. Smoker, T. J., Murphy, C. E., and Rockwell, A. K. 2009. “Comparing memory for handwriting versus typing,” in Proceedings of the Human Factors and Ergonomics Society Annual Meeting, Vol. 53 (Los Angeles, CA: SAGE Publications), 1744–1747. doi: 10.1177/154193120905302218
  6. Mueller, P. A., and Oppenheimer, D. M. 2014. The pen is mightier than the keyboard: advantages of longhand over laptop note taking. Psychol. Sci. 25, 1159–1168. doi: 10.1177/0956797614524581

 

Submetido: 30 Outubro 2020; Aceite: 8 Março 2022;

Publicado online: 6 April 2022.

EDITOR: Tzipi Horowitz-Kraus, Technion Israel Institute of Technology, Israel

SCIENCE MENTOR: Maria Garraffa

CITAÇÃO: Plebanek DJ and James KH (2022) Why Handwriting is Good for Your Brain. Front. Young Minds 10:623953. doi: 10.3389/frym.2022.623953

CONFLITO DE INTERESSES: Os autores declaram que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que possam ser interpretadas como um potencial conflito de interesses.

COPYRIGHT © 2022 Plebanek and James. Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License (CC BY). O uso, distribuição ou reprodução em outros fóruns é permitido, desde que o(S) autor(es) original (s) e o (S) Proprietário (es) dos direitos autorais sejam creditados e que a publicação original nesta revista seja citada, de acordo com a prática académica aceite. Não é permitida a utilização, distribuição ou reprodução que não esteja em conformidade com estes Termos.

 


Jovem revisora:  Rosa, de 11 anos – Nasci em 2010 em Itália e depois mudei-me para o Reino Unido quando tinha 8 meses. Sou bilingue e muito interessada na aprendizagem de línguas. Também tenho uma paixão pelo futebol. Na verdade, eu jogo futebol todos os dias, é uma obsessão! Eu gosto de ficar ativa, ouvindo os outros e cozinhando, pastelaria não! Apresentei-me num par de festivais de ciência, promovendo os benefícios do bilinguismo. Eu realmente amo a Ciência e quero, em particular, saber mais sobre o funcionamento do cérebro.

 

Os autores

DANIEL J. PLEBANEK Ph. D. era um estudante de Pós-graduação de 4 anos que trabalhava com a Professora Karin James. Concluiu o seu doutoramento em 2020. Ele estudou como as crianças aprendem em muitas situações diferentes, e o seu trabalho tem sido amplamente publicado em muitas revistas científicas. Ele morreu repentinamente no outono de 2020, logo após escrever este artigo.

KARIN H. JAMES A Professora Karin H. James Ph. D. estudou o desenvolvimento do cérebro em crianças pequenas durante os últimos 20 anos. Ela está interessada em saber como a mudança e a escrita podem ajudar as crianças a concentrar-se e melhorar a sua memória. Ela tem mais de 60 estudos publicados sobre desenvolvimento das crianças e como o cérebro muda à medida que aprendemos. Treina muitos estudantes sobre como realizar investigação científica. Ela trabalha Departamento de Ciências Psicológicas e do Cérebro na Universidade de Indiana em Bloomington, nos EUA. khjames@indiana.edu

 

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